
Ana Carolina Gama.
02/04/2025
Efeito Ghibli: uma questão de compliance ou liberdade criativa?
A estética mágica e nostálgica do Studio Ghibli voltou aos holofotes. Mas, desta vez, o assunto não está ligado ao lançamento de um novo filme. O que viralizou foi a explosão de imagens geradas por inteligência artificial no estilo visual característico do estúdio japonês. O movimento ganhou força após o lançamento de um novo recurso no ChatGPT, permitindo que usuários criem imagens com comandos simples.
Essa funcionalidade atraiu mais de um milhão de usuários em apenas uma hora, segundo Sam Altman, CEO da OpenAI. A repercussão foi imediata. Imagens inspiradas em filmes como "A viagem de Chihiro" e "Meu amigo Totoro" dominaram as redes sociais. O fenômeno rapidamente se transformou em trend. Mas por trás do entusiasmo e da criatividade, há uma discussão mais séria acontecendo nos bastidores: onde termina a inovação e onde começa a violação de propriedade intelectual?
Quando a inspiração cruza a linha do risco jurídico
O estilo Ghibli é único. Criado por mestres da animação como Hayao Miyazaki, ele carrega uma assinatura estética inconfundível. No entanto, a capacidade de IA em replicar esse estilo tem gerado questionamentos éticos e legais. Estamos diante de uma nova fronteira entre homenagem e apropriação indevida?
Em resposta à polêmica, a OpenAI declarou que evita permitir a geração de imagens no estilo de artistas vivos. No entanto, abriu uma exceção para estúdios com estilos amplamente reconhecíveis, como o Ghibli. A justificativa da empresa é que se trata de um movimento criativo e inspirador de fãs, não de cópias diretas. O objetivo, segundo eles, é promover a liberdade criativa dos usuários, mesmo reconhecendo que o uso de estilos visuais alheios continua sendo um ponto sensível no desenvolvimento da tecnologia.
A crítica do setor artístico
Essa flexibilização não passou despercebida. Mais de 400 profissionais do setor cultural, incluindo cineastas e músicos, assinaram uma carta aberta acusando a OpenAI de trabalhar ativamente para enfraquecer as proteções de direitos autorais, colocando em risco o trabalho criativo original.
Na prática, isso gera um efeito colateral claro: instabilidade jurídica e riscos de compliance para as empresas que se utilizam de modelos generativos. O uso de IA precisa ser orientado por políticas sólidas de governança, que considerem desde a origem dos dados utilizados até o impacto regulatório e reputacional de seus outputs. Nesse contexto, o uso da estética de um estúdio como o Ghibli, mesmo com boa intenção, pode escalar para um problema de grande proporção.
A inteligência artificial vai redefinir o que é original?
O que vemos com o chamado Efeito Ghibli é o reflexo de um dilema mais profundo. Por um lado, há o poder inegável da IA em democratizar a criação visual e dar vida a ideias antes inacessíveis a quem não domina ferramentas profissionais. Por outro, existe a responsabilidade de garantir que essas criações respeitem os limites legais, éticos e culturais.
Empresas que desejam adotar soluções com IA generativa em suas estratégias precisam entender que liberdade criativa não elimina a necessidade de compliance. Pelo contrário, exige maturidade organizacional, políticas claras e monitoramento constante para evitar violações que podem custar caro em termos de imagem e penalizações jurídicas.
A questão que paira sobre o mercado hoje é se a originalidade ainda pode ser medida nos moldes tradicionais. Afinal, se um usuário pede à IA para criar uma imagem "inspirada em Ghibli", mas o resultado não reproduz fielmente nenhuma obra do estúdio, há ou não infração?
O desafio está justamente na zona cinzenta. Nem sempre é fácil determinar o limite entre inspiração legítima e uso indevido. Isso torna ainda mais relevante a adoção de ferramentas que ajudem na rastreabilidade, verificação de dados de origem e uso ético da tecnologia.
Liberdade sem responsabilidade é risco
A tendência é clara: o uso de IA generativa seguirá crescendo, e as discussões sobre direitos autorais, ética e governança vão ganhar cada vez mais espaço. O Efeito Ghibli é apenas um exemplo do que já está acontecendo em escala global.
Empresas, desenvolvedores e usuários precisam entender que inovar não é apenas criar. É também responder pelas consequências. Adotar tecnologia de ponta requer estratégia, responsabilidade e um olhar atento ao que está por vir.